Unicamp revoga título concedido a coronel da ditadura militar


Jarbas Passarinho durante discurso na tribuna do Senado (Foto: Senado Federal / Arquivo)

O Consu (Conselho Universitário) da Unicamp revogou nesta terça-feira (28), em Campinas, o título de Doutor Honoris Causa concedido ao coronel Jarbas Passarinho, ministro da Educação entre 1969 e 1974, durante a ditadura militar no Brasil.

A reunião teve resultado unânime, com 74 votos favoráveis ​​e três ausências, e segue o exemplo da UFRJ, que também tomou a decisão através do conselho universitário, em abril deste ano.

Passarinho foi um dos proponentes do AI-5 (Ato Institucional nº 5), decretado em 13 de dezembro de 1968 e que deu início a um período de maior censura, repressão, perseguição e tortura contra militantes políticos e opositores do regime. Ele morreu em junho de 2016, aos 96 anos.

ABAIXO-ASSINADO E DOSSIÊ

A homenagem a ele na Unicamp, concedida em 30 de novembro de 1973, foi questionada pela comunidade, que organizou um abaixo-assinado com 400 assinaturas. Professores, trabalhadores, alunos e pesquisadores participaram da manifestação.

Um grupo de trabalho com representantes, grupos foi criado e um dossiê elaborado pela Comissão da Verdade e Memória "Octávio Ianni" foi enviado ao Consu. O documento criado em 2014, foi usado como argumento na reunião.

O docente aposentado do IFCH, Caio Navarro de Toledo, membro da comissão, também se baseou no Artigo 158 (parágrafo 1º) do Estatuto da Unicamp, que trata da concessão de títulos honoris causa.

O trecho fala em homenagens a "pessoas que têm contribuído, de maneira notável, ao progresso das ciências, das letras ou das artes; e aos que têm beneficiado, de forma excepcional, a humanidade ou têm prestado serviços relevantes à Universidade".

"Nesta sessão, o Consu, interpretando a vontade política de sua comunidade acadêmica, repara um equívoco que dura 48 anos", opinou o professor aposentado durante a reunião.

DECISÃO HISTÓRICA

Após a votação, Navarro lembrou que a primeira discussão sobre a revogação, em 2014, gerou frustração por não ter sido aprovada, mas elogiou a decisão nesta terça e fez questão de contextualizar o momento vivido pelo conselho nos anos 70.

"Aquelas pessoas estavam pressionadas pelo AI-5. Mas é muito importante podermos reavaliar uma decisão. A universidade mostra que está olhando para sua memória, seu presente e seu futuro, e que queremos uma sociedade plenamente democrática. É um momento histórico para a instituição. , pois identificada a Unicamp se mostrou tão coesa em torno a um tema de ordem política ", disse ele.

O reitor da Unicamp, professor Antonio Meirelles, conhecido como Tom Zé, abriu e participou da reunião. Ele definiu a votação como "fundamental histórica" e mencionou que a pauta tinha o apoio dos ex-reitores José Tadeu Jorge, Carlos Vogt, Marcelo Knobel e Hermano Tavares.

ALÉM DAS UNIVERSIDADES

Além da Unicamp e da UFRJ, uma rua em São Paulo que homenageava Sérgio Fleury, apontado como um torturador do regime militar, teve uma mudança de nome aprovado pela Rua Frei Tito de Alencar Lima. O frade foi torturado e perseguido pela ditadura.

O projeto de lei, aprovado na Câmara Municipal da capital paulista, foi sancionado pelo prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), no último dia 25.



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