Fome e vulnerabilidade realidade são na metrópole – Hora Campinas


Thayná Cândido da Silva é uma jovem de 25 anos que mora no Jardim Rosália 4, região do Padre Anchieta, em Campinas. Sua preocupação diária é oferecer alimento. No barraco onde mora, a dispensa está praticamente vazia. Um vidro com arroz repousa sobre uma mesa improvisada. Ao lado, uma garrafinha de coca-cola e uma mamadeira vazia. Sua casa é feita com madeirites e lonas. Uma porta velha de aço serve de parede num dos lados. Há duas geladeiras, mas a cena é angustiante. Dentro delas, apenas panelas com sobras de comida, alguns maços de verdura, catchup, molho de salada e retalhos de carne. Aliás, esses restos doados por açougue, em condições sanitárias normais, jamais poderia servir de alimento. O cenário de vulnerabilidade é completa com as frestas do barraco, por onde entram chuva e vento. Essa é outra preocupação da família: perder o pouco que tem pelas intempéries do tempo.

A realidade de Thayná contrasta com uma Campinas pujante, uma cidade que é polo de alta tecnologia, berço de universidades e endereço de centros de excelência e unidades de pesquisa. É também um pilar econômico de dar inveja a estados e até países. Esse retrato de vanguarda e desenvolvimento esconde seus abismos sociais. A vida da jovem catadora de papelão e de materiais recicláveis ​​pinta um quadro de extrema pobreza, agravada de forma contundente pela pandemia da Covid-19.

Com a severa perda de renda e os impactos da crise, cotidianos como os de Thayná resumem-se à tarefa primordial de sobreviver e garantir o mínimo de dignidade para o filho pequeno, Enzo Henrique, 3 anos.

Thayná Cândido da Silva, 25 anos, catadora de materiais recicláveis, diante da geladeira: batalha pela vida Foto: Leandro Ferreira / Hora Campinas

Thayná Cândido da Silva, 25 anos, catadora de materiais recicláveis, diante da geladeira: batalha pela vida Foto: Leandro Ferreira / Hora Campinas

Aliás, o número de famílias que vivem em situação de extrema pobreza em Campinas teve um crescimento expressivo na pandemia. Dados da Prefeitura apontam avanço de 16,9%. Esse estrato social inclui grupos familiares que vivem com renda mensal inimaginável de até R $ 89,01 por pessoa. Em dezembro de 2020, eram 38.279 grupos. Em junho último, alcançaram 44.774 núcleos.

O aumento, de acordo com números da Prefeitura de Campinas, ocorre também na chamada faixa da pobreza, que constitui os núcleos com renda mensal de R $ 89,01 a até R $ 178,00 por pessoa. Nesse estrato, o crescimento na pandemia foi de 0,98%. Eram 8.587 grupos em 2020; agora são 8.672.

Insegurança alimentar não é novidade

A insegurança alimentar não é novidade em Campinas. Regiões Sul, Sudoeste e Noroeste da cidade mantêm, há décadas, bolsões de pobreza e núcleos populacionais com carência evidente. O poder público e como redes de proteção privadas sempre que estiveram atentas a isso, oferecendo atendimento social e dignidade.

Nas décadas de 80 e 90, com uma cidade em franca expansão no que se convencionou chamar de “O outro lado da Anhanguera”, iniciativas de pastorais, como a da Criança, capitaneada por grupos ligados à Igreja Católica e à ação da médica missionária Zilda Arns, levavam solidariedade e reforço alimentar aos núcleos mais pobres da cidade. O instrumento principal era o farelo multimistura, que salvou milhares de crianças – da morte e da desnutrição. Em seu composto, arroz e trigo triturados, casca de ovo e folha de mandioca.

No cenário atual, diversos programas e iniciativas têm atenuado a fome e levado alimento a muitos de famílias. A pandemia afetou a renda dos mais vulneráveis ​​e de quem jamais imaginou ficar sem emprego. Neste sentido, têm feito a diferença e colaborado de forma decisiva, ações bem-sucedidas como o trabalho do Instituto de Solidariedade para Programas de Alimentação (ISA), em parceria com permissionários da Ceasa, uma campanha Mobiliza Campinas liderada pela Fundação Feac, e o esforço da Central Única das Fevalas (Cufa). O Hora Campinas contará numa série de três reportagens, a partir desta quarta-feira (27), o drama de famílias campineiras que estão vivendo com extrema dificuldade. Abordará também iniciativas da sociedade civil que estão atenuando esse dura realidade. É a série “Fome e Solidariedade”.

Thayná Cândido e o retalho de carne, com osso e fibras que jamais poderia ser considerado para uma refeição Foto: Leandro Ferreira / Hora Campinas

Retalhos doados pelo açougue

Thayná define sua vida atualmente como um “sufoco”. Ela diz que cata materiais recicláveis ​​para sustentar o filho. No barraco vivem o filho Enzo, Thayná, sua mãe, Eliana, e o padrasto. Uma jovem não exibe tórax uma tatuagem com o nome da mãe. Os quatro não sabem o que comerão no dia. Tudo é improvisado. Tudo depende de doações e das circunstâncias. O próprio subemprego de vender materiais descartados, com algum valor econômico, teve impacto na pandemia. Quem depende desse segmento teve que se adaptar, já que por conta do isolamento, a dinâmica de circulação nos pontos de coleta também mudou. A renda minguou. “Tô passando necessidade”, currículo. Sua renda em diás úteis é entre R $ 40 e R $ 50. Seu carrinho de reciclagem é pequeno, conta ela, o que reduz como chances de uma renda maior.

Ela afirma priorizar a compra de leite e fralda para o filho, já que o pai do menino “não ajuda”. Thayná afirma não estar cadastrada em nenhum programa oficial de ajuda do poder público. Diz também que não é atendida pelo Bolsa Família. Por isso, as doações são essenciais. “A gente vai no açougue e eles dão retalhos”.

Esses cortes de carne, segundo ela, são cozidos, e o ensopado é misturado no arroz e feijão.

Parceria com a mãe

Thayná Cândido da Silva afirma que a labuta diária em busca de renda e comida se dá em parceria com a mãe, Eliane. “Uma ajuda a outra. A gente vai lutando como pode ”, resigna-se. De manhã, geralmente não há café da manhã. Por volta das 9h, já começa o preparo do almoço, a refeição principal do dia. À tarde, bolinho de arroz com farinha de trigo. E à noite, a janta é a sobra do almoço. Sobre o futuro, um projeto simples e direto:

“Eu queria ter uma vida melhor, ter as coisas dentro de casa, ter um café da manhã. Arrumar a minha casa ”

Thayná e Enzo, entre brinquedos e roupas, no lugar onde tem uma cama e um sofá, no Jardim Rosália 4, em Campinas Foto: Leandro Ferreira / Hora Campinas

Videoreportagem: Leandro Ferreira



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